O pior dia de balanço da história do Google. E não foi por falta de IA.
A Alphabet fechou caindo 12,64%, a pior reação a um balanço desde que ela abriu o capital em 2004, depois de queimar US$ 9,1 bilhões de caixa num trimestre. O Fed não mexeu nos juros e deixou o mercado mais nervoso. E aqui o dólar, que caía de manhã, virou no meio do dia, com o Ibovespa fechando o quarto pregão seguido de queda.
Bom dia. Terça-feira eu escrevi aqui que o Brasil tinha caído 13,88% e o mundo não tinha piscado.
O mundo piscou hoje. Só que por outro motivo, e o motivo é mais interessante que o nosso.
A conta da IA chegou, e o Google abriu o envelope primeiro

A Alphabet divulgou o trimestre ontem à noite. O número que derrubou a ação não foi o lucro. Foi o caixa.
| Alphabet, 3º trimestre de 2026 | |
|---|---|
| fluxo de caixa livre | −US$ 9,1 bilhões |
| o que o mercado esperava | −US$ 2,7 bilhões |
| lucro líquido | US$ 26,17 bi, queda de 25,2% |
| lucro por ação | US$ 2,12, contra US$ 3,02 esperados |
| receita | US$ 127,6 bi, alta de 25% |
| nuvem | +103%, e ainda assim abaixo do esperado |
| busca | +12%, quando se esperava 14% |
Leia a linha da nuvem de novo. O negócio dobrou de tamanho em um ano e isso foi considerado decepcionante, porque os analistas queriam 105%. É o único lugar do planeta onde você cresce cem por cento e alguém pergunta por que não foi mais.
Mas a linha que importa é a primeira. Caixa livre negativo em US$ 9,1 bilhões, no segundo trimestre seguido no vermelho. Antes disso, a Alphabet tinha passado 22 anos de bolsa sem nunca queimar caixa. O capex deste ano está projetado entre US$ 195 e US$ 205 bilhões, e a diretora financeira avisou que em 2027 sobe "significativamente", sem dizer quanto. Essa palavra sem número custou caro.
A ação fechou caindo 12,64%, a US$ 283,82. O limiar para o recorde era 9,77%, e ele foi batido com folga: é a pior reação a um balanço na história da empresa desde que ela abriu o capital, em 2004. Vinte e dois anos de resultados trimestrais, e o pior deles foi este.
Terça eu contei aqui que a Nvidia ia pôr US$ 3 bilhões na Meta para a Meta comprar mais chip da Nvidia, e escrevi que podia ser o futuro sendo construído ou um cachorro correndo atrás do rabo. Dois dias depois o mercado começou a fazer a mesma pergunta em voz alta, só que com dinheiro. A Samsung caiu 4,1% na mesma madrugada, pelo mesmo motivo.
Ninguém está dizendo que a IA não funciona. Estão dizendo uma coisa bem mais chata: que ela precisa começar a pagar o próprio almoço.
E tem o lado que ninguém leu na manchete, que é o seu. A nuvem do Google cresceu 103% porque empresa de verdade está comprando IA de verdade, em volume. O mercado não está duvidando da demanda: está duvidando da conta. São coisas diferentes, e a segunda não cancela a primeira.
O que isso muda na prática, para quem trabalha com isso: enquanto o investidor cobra retorno, a briga entre os fornecedores vira preço. Terça eu contei aqui que a OpenAI tinha cortado o preço da API pela metade. Quanto mais aperto no balanço deles, mais barato fica a ferramenta no seu cartão, até alguém piscar. Aproveite a briga enquanto ela é entre eles.
O Fed não fez nada e piorou tudo

Ontem o Fed manteve o juro americano na faixa de 3,75% a 4,00%. Era o esperado. O problema foi o resto.
A votação saiu 10 a 2. As duas dissidentes, Lisa Cook e Beth Hammack, não queriam manter: queriam subir 0,25. E o comunicado promoveu a economia americana de "sólida" para "forte", mantendo que a inflação "continua elevada", hoje em 3,7%, quase um ponto acima da meta.
Resultado: o mercado saiu da reunião mais convencido de que o juro sobe em dezembro, não menos. A chance precificada pulou para 87,4%.
E tem o detalhe que ninguém diz em voz alta mas todo mundo escreve no relatório: a reunião foi a menos de uma semana das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Kevin Warsh, que preside o Fed, foi indicado por Trump. Subir juro na véspera de eleição é o tipo de coragem que costuma ficar para depois da eleição.
Não é acusação, é calendário. Eu só estou lendo a data.
O Brasil, quatro pregões depois

Enquanto isso, aqui embaixo, o tombo virou rotina:
| Ibovespa | |
|---|---|
| sexta, 23 de outubro | 205.083 |
| segunda | 176.608, −13,88% |
| terça | 175.710, −0,51% |
| quarta | 171.006, −2,68% |
| quinta, hoje | 169.362, −0,96% |
São 17,4% em quatro pregões. O dólar, no mesmo período, foi de R$ 4,96 para R$ 5,39: 8,6%.
A segunda-feira foi o susto. A quarta-feira é que foi a notícia. Susto se explica com emoção; o terceiro dia de queda já não tem desculpa emocional, é gente recalculando a conta com calma.
O dólar virou no meio do dia, e o fechamento é outro

Esta é a parte que eu quase publiquei errado, e vale contar por quê.
Às 10h34 desta manhã o dólar estava em R$ 5,3575 e caindo. Eu tinha a tabela pronta, com o Brasil caindo menos que todo mundo, e uma frase bonita sobre o Brasil ser o que menos cai da tela. Cinco horas depois a tela é outra:
| como tudo fechou, 17h de Brasília | |
|---|---|
| Alphabet | −12,64%, a US$ 283,82 |
| SOX, o índice dos chips | −1,42% |
| Nasdaq | −1,38% |
| S&P 500 | −0,31% |
| Ibovespa | −0,96%, aos 169.362 |
| dólar | R$ 5,39 |
| ouro | US$ 4.032, −0,47% |
| bitcoin | US$ 80.747, −0,64% |
O dólar fez a mínima do dia em R$ 5,34 de manhã, a máxima em R$ 5,43 à tarde e fechou em R$ 5,39. Nove centavos de amplitude num dia só, e a virada aconteceu enquanto o Brasil almoçava.
A frase bonita da manhã evaporou junto. O Ibovespa, que caía 0,36%, fechou caindo 0,96%: ainda é menos que a Nasdaq, mas por pouco, e não por mérito. É o quarto pregão seguido de queda.
E o ouro finalmente se mexeu, depois de três dias de pedra: US$ 4.032, queda de 0,47%. Não é pânico, é o contrário. Ouro caindo no mesmo dia em que a bolsa cai costuma ser gente vendendo o que dá para vender, não gente correndo para o abrigo.
A lição do dia inteiro cabe numa linha: número de manhã não é notícia, é foto.
O petróleo caiu 3,5%, e essa é a boa notícia do dia

O Brent fechou ontem a US$ 115,32, em alta, com o mercado precificando escalada no Irã. Fechou hoje em US$ 111,24, uma queda de 3,5%.
Isso parece irrelevante no meio de tudo. Não é. Petróleo caro é a razão número um para o Fed subir juro, e juro americano alto é a razão número um para o dólar subir aqui. O barril é o começo de uma fila que termina na bomba de gasolina em Osasco.
Enquanto o resto da tela piora, essa foi a única linha que melhorou a vida de todo mundo ao mesmo tempo. E ninguém vai noticiar, porque gasolina só vira manchete quando sobe.
A vida aqui

A decisão do Fed de ontem não é assunto de economista. É a sua parcela do carro.
É a parte que eu demorei a entender quando mudei. No Brasil a gente trata juro americano como notícia internacional. Aqui dentro, ele é o preço de tudo que você paga parcelado: cartão, carro, financiamento da casa.
O Fed deixou a taxa em 3,75% a 4,00% e o mercado saiu de lá dando 87,4% de chance de alta em dezembro. Quem está pensando em mudar para cá e fazendo conta com a taxa de hoje está fazendo conta com um número que o próprio mercado acha que vai subir em seis semanas.
E tem a outra ponta, que é a de quem manda dinheiro. Mil dólares enviados na sexta passada viravam R$ 4.965. Os mesmos mil dólares no fechamento de hoje viram R$ 5.390. Quatrocentos e vinte e cinco reais a mais, sem você fazer absolutamente nada, em quatro dias úteis.
Do outro lado da mesma moeda está quem ganha em real e paga em dólar: mensalidade, assinatura, viagem marcada. Esse acordou 8,6% mais pobre em quatro dias, e ninguém mandou e-mail avisando.
Câmbio é a única notícia econômica que entra na casa de todo mundo sem bater.
O que eu vou olhar

A Amazon, hoje à noite, e a Apple na semana que vem. O mercado está com o dedo no gatilho depois do que fez com o Google. Se as duas também mostrarem capex engolindo caixa, o assunto deixa de ser o Google e passa a ser a tese inteira.
As eleições americanas de meio de mandato, na semana que vem. Elas decidem o Congresso, e o Congresso decide o tamanho do rombo que o Fed vai ter que administrar em 2027.
O ouro. É a mesma frase de terça, de propósito. No dia em que ele acordar junto com o bitcoin, a conversa muda de assunto e eu volto aqui correndo.
Rodrigo Scarpa
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O Brasil e os Estados Unidos vistos por quem mora fora. IA, mercado americano e o que a distância deixa ver. Sem enrolação e sem vender curso no meio do texto.
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