O Brasil parou. O resto do mundo nem piscou.
No mesmo dia em que a Bolsa brasileira caiu 13,88% e a B3 teve de suspender o pregão, o índice de semicondutores em Nova York subiu 2,8%, o ouro ficou parado e o bitcoin nem se mexeu. Hoje de manhã o dólar já devolve parte da alta. Na IA, a Anthropic abriu os livros para a Nasdaq e a OpenAI cortou o preço pela metade. E as buscas por "como morar no Paraguai" subiram 1.700%. Hoje às 18h tem live sobre imigração no meu Instagram.
Bom dia. Ontem o Brasil teve o pior dia de Bolsa desde a pandemia.
No mesmo dia, do lado de cá, o índice das empresas de chip subiu quase 3%.
Essa frase é a newsletter inteira. Vamos aos números.
O dia em que dois mundos não se falaram

| segunda, 26 de outubro | |
|---|---|
| Ibovespa | −13,88%, a 176.608,23 |
| mínima do dia | 169.516,43, queda de 17,34% |
| dólar comercial | R$ 5,403, alta de 8,21% |
| máxima do dia | R$ 5,6049 |
| S&P 500 | +0,70%, a 7.676,77 |
| Nasdaq Composite | +0,82%, a 26.169,38 |
| SOX, o índice dos semicondutores | +2,82% |
| Nvidia | +2,39% |
| ouro | US$ 4.038 a onça, praticamente parado |
| bitcoin | US$ 80 mil, parado |
Mesma segunda-feira. Mesmo planeta.
A B3 precisou acionar o circuit breaker, ampliar o limite de queda duas vezes e reabrir por leilão. Enquanto isso, o S&P 500 fechou a 1,8% do recorde histórico dele, que é de 6 de outubro.
E o dado que mais diz, porque é o que ninguém olha: o ouro não se mexeu, e o bitcoin também não. Quando o risco é global, os dois correm. Ontem não correram. O mercado tratou o que aconteceu no Brasil como problema do Brasil, não como começo de alguma coisa.
Isso é bom e é ruim ao mesmo tempo. Bom porque não houve contágio. Ruim porque significa que ninguém lá fora precisou mudar de plano por nossa causa.
O que eu estou vendo agora, 9h30 da manhã

A B3 abre às 10h. Quando você estiver lendo isso, ela pode já ter aberto. Então eu não vou dizer como ela abriu: vou dizer o que já estava andando quando eu escrevi, e a hora está colada em cada linha.
O dólar. Às 9h26 de Brasília, R$ 5,3535. Comparado com o fechamento de ontem, R$ 5,403, é uma queda de cerca de 0,9%. A máxima desta madrugada foi R$ 5,4191 e a mínima, R$ 5,3425. Conferi em duas fontes independentes, e as duas deram o mesmo número.
Os futuros americanos. S&P futuro a +0,35%, Nasdaq futuro a +0,46%. Verde de novo, pela quinta sessão.
O Brasil, negociado daqui. O EWZ, o fundo que é a Bolsa brasileira inteira em dólar, estava a US$ 34,54 no pré-mercado, 1,2% acima do fechamento de ontem. Não é promessa de nada. É só o que os primeiros negócios estavam marcando antes de a B3 acordar.
Ouro e bitcoin. O ouro a US$ 4.030, o bitcoin a US$ 80.082. De novo: nada.
Essa é a parte de morar fora que ninguém conta. O Brasil já está sendo negociado lá fora quatro horas antes de abrir aqui. Quando o pregão de São Paulo toca a campainha, o preço já existe.
O que eu medi daqui, no fechamento de ontem

Ontem, às 10h, com a B3 ainda suspensa, eu puxei os preços das ações brasileiras negociadas em Nova York e publiquei aqui. À noite puxei de novo, no fechamento. Os dois números estão na mesma tabela, porque a diferença entre eles é a notícia:
| papel | o que publiquei às 10h | fechou |
|---|---|---|
| Bradesco | −28,9% | −28,1% |
| Itaú | −24,1% | −20,5% |
| EWZ, o Brasil inteiro | −22,8% | −19,8% |
| Petrobras | −15,8% | −14,1% |
| Vale | −3,7% | −3,3% |
Todos fecharam melhor do que estavam quando eu escrevi. O EWZ chegou a US$ 31,40 no pior momento e terminou em US$ 34,14: subiu quase 9% a partir do fundo, dentro do mesmo dia.
Trocaram de mão 13,7 milhões de cotas do EWZ, contra 6,3 milhões na sexta. No Itaú foram 10,8 milhões contra 1,9 milhão. Volume assim, com o preço voltando, costuma ser gente vendendo com pressa para alguém que estava esperando o preço.
Quem olhou às 10h viu o pânico. Quem olhou às 17h viu o preço.
A IA teve a semana dela, e quase ninguém no Brasil viu

Enquanto o Brasil olhava para a urna e para a tela do home broker, aconteceram três coisas grandes do outro lado.
A Anthropic abriu os livros. Na segunda-feira ela protocolou o S-1 na SEC para listar na Nasdaq com o código ANT. Número de ações e faixa de preço ainda em branco, Goldman Sachs e Morgan Stanley à frente. O que o documento mostra:
| Anthropic, segundo o próprio prospecto | |
|---|---|
| receita de 2025, ano inteiro | US$ 4,59 bilhões |
| receita do 1º semestre de 2026 | US$ 16,29 bilhões |
| prejuízo líquido no semestre | US$ 80,7 bilhões |
O prejuízo assusta até você ler a nota de rodapé: mais de US$ 72 bilhões dele são marcação a mercado de notas conversíveis, ou seja, a conta contábil de a própria empresa ter ficado mais cara. Não é dinheiro saindo pela porta. O que sai pela porta é computação, e essa parte é menor.
Segundo fontes ouvidas pela Bloomberg, a estreia é mirada para novembro, com avaliação na casa de US$ 1,5 a 2 trilhões. Isso é especulação de bastidor, não documento, e eu registro como tal.
A OpenAI cortou o preço pela metade. Lançou o GPT-6.1 Terra: US$ 1 por milhão de palavras entrando e US$ 5 por milhão saindo, metade do que custava a versão anterior. O foco do modelo é operar o computador no seu lugar: preencher formulário, mexer em planilha, ir de um aplicativo para outro.
A Nvidia comprou um pedaço da Meta. US$ 3 bilhões na oferta de ações que a Meta anunciou para bancar data center de IA. A oferta inteira chegou a US$ 97,5 bilhões, a maior captação da história da empresa.
Repare no desenho que isso forma. A Nvidia vende chip para a Meta, e agora compra ação da Meta para a Meta comprar mais chip da Nvidia. É o mesmo dinheiro dando a volta. Pode ser o futuro sendo construído, pode ser um cachorro correndo atrás do próprio rabo, e quem disser que sabe qual dos dois está chutando.
O que isso tem a ver com você. Duas coisas, e as duas são práticas:
A primeira é que o preço da IA caiu pela metade de novo, no mesmo mês. Ferramenta que há um ano só uma empresa grande pagava, hoje cabe no cartão de um autônomo. Essa é a janela, e ela não vai ficar aberta parada: ela fecha quando todo mundo já estiver usando.
A segunda é que a correção que machucou lá fora foi em tecnologia, não no mercado inteiro. O S&P está a 1,8% do recorde; a Nasdaq, a 5,2%. Quem comprou "o mercado americano" está quase inteiro. Quem comprou só IA levou um susto maior. Diversificação não é papo de consultor chato, é a diferença entre esses dois números.
"Como morar no Paraguai" subiu 1.700%

Esse foi o levantamento do Valor no Google Trends, logo depois do resultado de domingo. Não é piada, e também não é o que parece.
Busca não é mudança. Mil pessoas pesquisando "como morar no Paraguai" às onze da noite de domingo são mil pessoas com raiva, não mil mudanças de endereço. Eu sei disso porque fiz a pesquisa um dia, há oito anos, e levou muito mais que uma noite.
Mas tem um número por baixo da busca, e esse é de verdade:
| residências concedidas pelo Paraguai a brasileiros | |
|---|---|
| 2024 | 17,1 mil |
| 2025 | 23,5 mil |
| 1º trimestre de 2026 | 9,2 mil |
Em 2025 o Paraguai concedeu 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros no total. Mais da metade foi para brasileiro. Os números são da Direção Nacional de Migrações do Paraguai, levantados pela BBC News Brasil. O atrativo que aparece em todo vídeo sobre o assunto é o imposto: 10% de renda, 10% de IVA.
E tem o outro lado da conta, que é o meu lado. Entre os brasileiros que votaram no exterior, o Lula ganhou com 53,86%. Nos Estados Unidos, o Flávio ganhou com 62,25%. O mesmo eleitor, na mesma eleição, vota diferente conforme o país onde foi morar. Portugal não é Flórida. Paraguai não é Japão.
E, para fechar com o número que eu não vi quase ninguém publicar: as prisões de brasileiros pelo ICE passaram de uma média de 3 por dia nos últimos anos do governo Biden para 14 por dia no governo Trump, segundo o Deportation Data Project, da Universidade da Califórnia. Isso é parte do custo de morar aqui, e quem vende mudança sem falar disso está vendendo foto, não país.
Hoje às 18h eu faço uma live sobre imigração

Combinando com o bloco de cima: depois de uma semana dessas, a pergunta que mais chegou aqui não foi sobre a Bolsa. Foi sobre sair.
Hoje, 27 de outubro, às 18h de Brasília, eu converso ao vivo com Leonardo Freitas, CEO da HAYMAN-WOODWARD, escritório de imigração. O assunto é o cenário pós-eleição e o planejamento de quem está considerando morar fora.
É no meu Instagram, no @rodrigoscarpa, e é lá também que estão as informações. Pode levar a pergunta pronta.
Uma coisa que eu já adianto, porque vale antes da live: eu moro aqui há oito anos e a resposta nunca é a mesma para duas pessoas. Quem vende resposta única para imigração está vendendo outra coisa.
E a política, em três linhas
O Flávio desistiu de pedir a anulação da eleição e trocou por uma AIJE, que pede a cassação da chapa por abuso de poder econômico. O alvo deixou de ser a urna e passou a ser a campanha.
O PL reconheceu o resultado, em nota assinada por Valdemar Costa Neto.
E a AIJE não é novidade: um levantamento de O Globo contou quinze ações desse tipo já em curso na véspera do segundo turno, oito do Flávio contra o Lula e sete do Lula contra o Flávio. Até agora ninguém protocolou a nova.
Domingo era anular a eleição. Segunda virou processo contra a campanha. É a diferença entre dizer que o jogo foi roubado e dizer que o outro time treinou demais.
O que eu vou olhar

O Fed, amanhã. O mercado precifica cerca de 90% de chance de os juros ficarem onde estão. Decisão de juro aqui mexe no dólar aí.
O nome da Fazenda. Continua sendo o que decide se o susto vira tendência.
Se o ouro acorda. Enquanto ele e o bitcoin ficarem parados, o problema continua sendo local. No dia em que os dois se mexerem juntos, a conversa muda de assunto.
A semana passada o mercado comprou uma eleição que não veio. Ontem devolveu. Hoje abre tentando descobrir quanto é que ele exagerou.
Rodrigo Scarpa
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O Brasil e os Estados Unidos vistos por quem mora fora. IA, mercado americano e o que a distância deixa ver. Sem enrolação e sem vender curso no meio do texto.
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