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O mercado apagou o corte de juros. A Apple caiu 4% falando. E hoje os americanos votam.

O mercado apagou o corte de juros. A Apple caiu 4% falando. E hoje os americanos votam.

A capa e as ilustrações desta edição são feitas por mim com inteligência artificial, no Higgsfield. O link é de afiliado: eu recebo comissão se você assinar por ele, e o preço para você é o mesmo.

O primeiro Focus depois da reeleição piorou quase tudo — e no recorte das respostas mais recentes o mercado já não vê corte nenhum de Selic neste ano; o dólar abriu em alta de novo, perto de R$ 5,49, e o Ibovespa futuro caía 1,65% na volta do feriado; o Copom começa hoje e decide amanhã; a Apple bateu o trimestre e a ação caiu 4% durante a teleconferência, quando a empresa disse que a margem de Natal cai para 45% a 46% por causa do preço da memória, que o presidente chamou de "sem precedentes"; o compromisso de compra da Apple subiu US$ 33 bilhões no trimestre, que é a resposta ao estoque que dobrou; o iPhone Duo está em falta e sem data; e hoje os Estados Unidos votam nas eleições de meio de mandato.

Bom dia. O Brasil reabre hoje depois do feriado, e reabre com três coisas em cima da mesa ao mesmo tempo: o primeiro Boletim Focus desde a reeleição, o Copom começando a reunião que decide amanhã, e a eleição americana acontecendo hoje.

Eu escrevo da Flórida, então vou avisando: o resultado das urnas daqui sai esta noite, depois que esta edição já tiver chegado em você. Amanhã eu conto.

O dólar (e o resto do mercado)

Macro de um ponteiro de manômetro encostado no pino de fim de curso, sem conseguir avançar

O Focus de hoje é o primeiro com as respostas consolidadas depois do dia 25, e ele piorou quase tudo:

projeçãoantesagora
IPCA 20274,34%4,76%
IPCA 20265,19%5,22%
Selic no fim de 202613,25%13,50%
Selic no fim de 202711,75%12,50%
Dólar no fim de 2026R$ 5,05R$ 5,34
PIB 20261,80%1,76%
PIB 20271,31%1,20%

Mas o número que importa está escondido no rodapé do relatório, e é ele que eu quero que você leve. O Focus publica a mediana de todo mundo, inclusive de quem respondeu antes da eleição. Quando se olha só as 108 respostas atualizadas nos últimos cinco dias úteis — as de quem já viu a urna —, a mediana da Selic para o fim deste ano não é 13,50%.

É 13,75%. Exatamente onde ela está hoje.

Traduzindo: quem está olhando o mercado agora apagou o corte de juros que ainda faltava neste ano. A conta anterior tinha dois cortes, virou um, e no recorte fresco virou nenhum. No mesmo recorte, o dólar do fim do ano não é R$ 5,34, é R$ 5,40.

Enquanto isso, nesta manhã: por volta das 9h de Brasília o dólar subia 1,21%, a R$ 5,5126; às 9h19 estava em R$ 5,4936. Às 7h53 da Flórida, momento em que eu escrevo, R$ 5,4850. É um número que não para quieto, então leia com a hora ao lado. O Ibovespa futuro caía 1,65%, a 167.680 pontos.

O Copom começa hoje e anuncia amanhã, depois do fechamento. A Selic está em 13,75%. O Valor ouviu 105 bancos e consultorias: 72 esperam manutenção e 33 ainda apostam em corte de 0,25. Antes da eleição a maioria era do outro lado.

Três coisas menores que mudam o seu dia a dia:

- A bolsa tem horário novo a partir de hoje: pregão regular até 17h55, com leilão de fechamento até as 18h. É efeito do fim do horário de verão nos Estados Unidos, não de crise nenhuma - A semana da eleição entrou para a estatística: a queda de 18,12% foi a quinta maior queda semanal desde o Plano Real, em julho de 1994, segundo levantamento da Elos Ayta com dados da B3. É também a pior desde 2020 - Um boato mexeu com o mercado e foi desmentido: circulou que o Lula se reuniria esta semana com o economista André Lara Resende. O ministro Dario Durigan, da Fazenda, disse que não há reunião marcada e que o governo não planeja tabelar juros

O Itaú divulga o balanço hoje, depois do fechamento.

O que a IA aprontou

Módulos de memória enfileirados sobre aço escuro, com uma luz vermelha rasante vinda de trás

A conta da inteligência artificial chegou num lugar que ninguém estava olhando: o preço da memória.

Você já sabe que as empresas de IA estão gastando fortunas em data center — eu te contei ontem que foi isso que derrubou Alphabet, Intel e Reddit na semana passada. O que ficou claro ontem à noite é o outro lado da mesma conta: toda essa máquina precisa de chip de memória, e o preço disso explodiu.

Quem disse isso não foi analista, foi o presidente da Apple, na teleconferência de ontem:

> "O que estamos vendo com o preço da memória agora é sem precedentes." > > John Ternus, presidente da Apple, 2 de novembro de 2026

E a Apple mostrou o tamanho do susto em número: o compromisso de compra da empresa subiu US$ 33 bilhões em um único trimestre. O diretor de operações não confirmou contrato de longo prazo, mas disse que está "trabalhando de perto com os fornecedores de memória".

Isso responde a pergunta que eu deixei aberta ontem. Eu te mostrei que o estoque da Apple saiu de US$ 5,7 para US$ 14,5 bilhões em um ano e escrevi que esse número viraria pergunta na teleconferência. Virou, e a resposta é essa: a Apple está comprando memória adiantado, em quantidade, com medo de ficar sem e de pagar mais caro depois.

E quem paga a conta é você. A Apple aumentou o preço de Mac e iPad no fim de junho e do iPhone em setembro — o iPhone 17 subiu US$ 100. Ternus disse com todas as letras que os aumentos serviram para compensar a memória. Não é inflação genérica: é um componente específico ficando caro porque a IA comprou tudo.

Um detalhe que vai pegar muita gente de surpresa: a Apple avisou que vai haver limite de uso nos recursos que dependem de servidor, incluindo a Siri AI e a edição inteligente de fotos. O que roda no seu aparelho continua livre; o que roda na nuvem deles, não. É a primeira vez que a Apple fala em racionar função de IA.

Brasil e Estados Unidos

Hoje os Estados Unidos votam. São as eleições de meio de mandato: quase todo o Congresso se renova, mais 36 governos estaduais. As urnas já abriram nos doze estados da Costa Leste.

É o teste do governo Trump na metade do mandato, e a conta é simples: se ele perder o Congresso, o que der para fazer por decreto vira o plano inteiro. Eu te contei ontem quais são as quatro frentes que a Casa Branca já tem prontas para esse caso — imigração, tarifas, custo de moradia e gastos federais —, e duas delas batem direto no Brasil: tarifa no exportador e aperto no visto de estudante e de trabalhador temporário.

Por que isso mexe com o seu bolso mesmo morando no Brasil: o resultado daqui mexe no dólar lá. Congresso dividido costuma significar menos gasto público aprovado nos Estados Unidos, o que mexe no juro americano, que mexe em quanto dinheiro sai do Brasil. Não é torcida, é encanamento.

O resultado começa a sair esta noite, horário de Brasília já de madrugada.

O que está bombando

Macro de uma trinca fina correndo pela dobra de uma lâmina de vidro escuro, com luz vermelha saindo de dentro da fenda

A Apple bateu tudo e a ação caiu 4% enquanto o presidente falava. Ontem eu te mandei o balanço e disse que o que move o preço de verdade ainda não tinha acontecido: a teleconferência. Aconteceu, e foi exatamente ali que o preço se mexeu.

A sequência, segundo a Reuters: a ação ficou de lado no mercado estendido logo depois dos números, caiu 4% durante a teleconferência quando os executivos deram a previsão, e depois devolveu parte, fechando o estendido perto de 2% abaixo. Agora, no pré-mercado desta manhã, está em US$ 324,95 — cerca de 3,9% abaixo do fechamento de ontem. Lido às 7h53 da Flórida.

O que foi dito que derrubou:

trimestre de Natal · previsão da Apple
Receitacrescimento de 7% a 10% — e seria o maior trimestre da história
Margem bruta45% a 46%, contra 47,9% no trimestre que acabou
Serviçoscrescimento de 8% a 9% — o mercado esperava 10,7%
Despesa operacionalUS$ 20,4 a 20,8 bilhões

Leia a segunda e a terceira linha juntas. A Apple vai vender mais do que nunca e ganhar menos em cada venda, porque a memória subiu. E Serviços — que é a parte de margem alta, o motor de lucro da empresa — vai crescer menos do que se esperava. Receita recorde com margem caindo é a definição de trabalhar mais para ganhar o mesmo.

O iPhone Duo, o dobrável, é a outra metade da história, e ela tem dois lados. O bom: vendeu tudo em minutos, está em falta, e a empresa não sabe dizer quando a oferta alcança a procura — "é muito difícil prever", disse o diretor de operações. O Bank of America calcula espera média de 79 dias para quem compra agora, o que joga a entrega para janeiro.

O lado ruim: apareceram relatos de tela trincada na dobra. Ternus disse à Reuters que foi "uma porcentagem muito pequena" e que a Apple está trocando os aparelhos. O assunto não foi mencionado na teleconferência — ele só falou disso na entrevista.

O que eu acho que está acontecendo, e é opinião, não notícia: a Apple trocou o ritmo de lançamento. Em vez de jogar todos os iPhones de uma vez em setembro, soltou Pro e Duo agora e deixou o básico e o Air para a primavera. É uma empresa de US$ 4,9 trilhões tentando parar de depender de um único trimestre por ano — e o preço disso é um Natal com margem menor e um dobrável de US$ 1.999 que ela não consegue fabricar rápido o suficiente.

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