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A Bolsa parou. Primeira vez desde a pandemia.

A Bolsa parou. Primeira vez desde a pandemia.

O Ibovespa caiu 10% na abertura e a B3 suspendeu o pregão por 30 minutos, coisa que não acontecia desde março de 2020. O dólar foi de R$ 4,99 na sexta para R$ 5,60 às 9h40. Eu medi as ações brasileiras daqui de Nova York e o buraco é maior do que parece: banco caindo 29% e a Vale quase de pé. E o TSE desmentiu a acusação que o Flávio fez ontem à noite.

Bom dia. Ontem eu escrevi que o número de domingo à noite não ia ser o de segunda, e que a direção é que era informação.

A direção estava certa. O tamanho eu não previ.

A Bolsa parou

Um gráfico de barras laranja despencando, cortado ao meio por uma linha horizontal clara, com um relógio dourado parado ao lado

Às 9h57 a B3 acionou o circuit breaker. O Ibovespa tinha caído 10% em relação a sexta, e o pregão à vista parou por 30 minutos. Ações, fundos imobiliários, ETFs, opções e renda fixa privada, tudo suspenso. A reabertura foi por leilão, entre 10h30 e 10h35.

A última vez que isso aconteceu foi em março de 2020, na primeira semana da pandemia.

Antes disso, às 9h, o Ibovespa futuro já tinha batido o limite. A B3 ampliou o teto de queda duas vezes no mesmo dia: de 10% para 15% antes da abertura, e depois para 20%, com o mercado já andando. Às 9h40 o futuro caía 19,80%, aos 167.055 pontos. Chegou a 19,85%.

No câmbio foi assim:

dólar comercial
sexta, 23 de outubroR$ 4,993
abertura, 9h03R$ 5,4248, alta de 8,65%
9h40R$ 5,6048, alta de 12,25%

A B3 também teve de mexer no dólar futuro, subindo o teto de alta diária de 6% para 8,4%, só para hoje.

Teve gente que foi dormir com o Ibovespa em 205 mil e acordou com a Bolsa fechada.

O que eu medi daqui

Cinco barras laranja de alturas muito diferentes, com a menor isolada à direita por uma linha clara

Ação brasileira também negocia em Nova York, e aqui o pregão não para quando o de lá para. Puxei os preços dos dados de mercado daqui às 10h, com a B3 ainda suspensa, e comparei com o fechamento de sexta:

papelsexta10h de hoje
BradescoUS$ 4,07US$ 2,895−28,9%
ItaúUS$ 9,67US$ 7,335−24,1%
EWZ, o fundo que é o Brasil inteiroUS$ 42,59US$ 32,865−22,8%
PetrobrasUS$ 26,16US$ 22,035−15,8%
ValeUS$ 12,395US$ 11,935−3,7%

Duas coisas nessa tabela, e nenhuma é óbvia.

A primeira é por que esses números são maiores que os 10% da B3. É que eles estão em dólar. Quem compra Brasil daqui perde duas vezes no mesmo dia: a ação caiu, e o real em que ela é cotada caiu junto. Dez por cento de Bolsa com onze de câmbio já dão quase vinte em dólar, e o EWZ caiu mais que isso porque a perna de ação estava mais funda que os 10% do índice naquela hora. O número não é mais verdadeiro que o de lá, é a mesma coisa vista de fora.

A segunda é a Vale, e ela explica o resto da tabela. A Vale vende minério em dólar, para fora. Quando o real cai, a receita dela em real sobe. Banco é o oposto: ganha em real, empresta em real, e vive de juro e de risco fiscal, que foram as duas coisas que explodiram hoje de manhã. Por isso o Bradesco caiu oito vezes mais que a Vale no mesmo dia, no mesmo país, pela mesma notícia.

Quem só olha o índice vê um país caindo. Quem olha papel por papel vê quem paga a conta.

O TSE respondeu a acusação de ontem

Um escudo geométrico de contorno claro com uma marca dourada no centro, sobre fundo escuro

Ontem à noite eu publiquei que o Flávio tinha acusado o TSE de tirar os fiscais do PL da sala-cofre durante a apuração, e registrei como acusação não comprovada, porque era o que eu tinha.

O TSE respondeu de madrugada, por nota, e desmentiu.

Segundo o tribunal, a sala-cofre não é espaço aberto a visitação de ninguém, nunca foi, e não é de lá que se acompanha a apuração. Quem acompanha fica na sala de totalização, que recebe fiscal de partido, observador internacional, advogado e Ministério Público. E os fiscais do PL estavam lá, diz a nota.

Kassio Nunes Marques, presidente do TSE e indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, disse ter "absoluta segurança de todo o processo eleitoral" e acrescentou que "não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial".

Davi Alcolumbre, no Senado, e Hugo Motta, na Câmara, reconheceram a vitória e atestaram a regularidade da votação.

E o pedido de anulação continua sendo anúncio. Até agora, ninguém protocolou nada.

Acusação leva uma noite para dar a volta no país. Desmentido leva uma nota às duas da manhã.

A vida aqui

Uma mala aberta dourada com uma cédula laranja dentro, e uma seta clara descendo ao lado

Quem manda dinheiro pra casa teve o melhor dia do ano, e não fez nada pra isso.

Mil dólares enviados na sexta viravam R$ 4.993. Os mesmos mil dólares, às 9h40 de hoje, viravam R$ 5.604.

Seiscentos e onze reais a mais, no mesmo envio, em dois dias úteis.

Do outro lado da mesma conta está quem ganha em real e paga em dólar, e esse acordou quase 11% mais pobre sem ninguém ter avisado. O dólar subiu 12,25%, mas o real caiu 10,9%: porcentagem de ida e porcentagem de volta nunca são o mesmo número.

E tem o terceiro, que é a maioria: quem mora no Brasil, não manda nem recebe nada, e vai sentir isso daqui a algumas semanas no preço do que é importado, no combustível e na passagem.

Câmbio é a única notícia econômica que chega na casa de todo mundo sem pedir licença.

O que eu vou olhar

Um calendário geométrico de contorno claro com um dia circulado em laranja no meio da grade

O fechamento de hoje, e não a abertura. Dia de circuit breaker costuma fechar longe de onde abriu, para os dois lados. O número que vale é o das 17h.

Quem vai ser o ministro da Fazenda. Foi o que todas as casas disseram ontem, com palavras diferentes, e continua sendo o que decide se o susto de hoje vira tendência.

Se o PL protocola. Anúncio em pronunciamento não é petição. Ministros do TSE já trataram a anulação como fora de cogitação pela margem, que foi de 4,4 milhões de votos.

Em uma semana o mercado comemorou com recorde, apostou no resultado errado e parou a Bolsa. Tudo isso com o mesmo país embaixo.

Rodrigo Scarpa

Correção, 26 de outubro. A versão que foi por e-mail dizia que quem ganha em real acordou 12% mais pobre. O certo é quase 11%: o dólar subiu 12,25%, o real caiu 10,9%, e os dois números não são o mesmo. Esta página está corrigida; o e-mail já tinha saído.

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