A eleição acabou às 19h. E não acabou.
Lula foi reeleito com 51,79% contra 48,21%, perdendo em 14 estados e ganhando em 13. A votação foi prorrogada até as 19h por uma decisão assinada três minutos depois do prazo, aplicada de forma desigual, e o Flávio não reconheceu o resultado: vai pedir anulação. Enquanto isso, o preço começou a ser feito em Nova York, Chicago e Tóquio, com o Brasil dormindo.
Boa noite. Edição especial, fora do horário, porque o assunto não espera segunda.
O Brasil reelegeu o Lula. O Flávio não reconheceu o resultado e vai pedir anulação. E o preço disso começou a ser feito aqui, de madrugada, com a bolsa de lá fechada e o país dormindo.
O resultado

Os números são do TSE, lidos direto do arquivo oficial de divulgação, com 99,99% das seções totalizadas.
| 2º turno, 25 de outubro | |
|---|---|
| Lula (PT) | 51,79% · 64.255.891 votos |
| Flávio Bolsonaro (PL) | 48,21% · 59.825.984 votos |
| diferença | 4.429.907 votos |
| brancos | 1.430.493 |
| nulos | 2.723.298 |
| abstenção | 30.508.972, ou 19,2% |
O TSE deu a eleição como matematicamente definida às 21h09. É o quarto mandato do Lula, com Geraldo Alckmin de vice, e começa em janeiro de 2027.
Agora o número que quase ninguém vai contar hoje, e que diz mais que o placar. Rodei estado por estado no arquivo do TSE: o Flávio venceu em 14 estados e o Lula em 13. Levou mais mapa e menos voto.
Flávio levou Acre, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins.
Lula levou Alagoas, Amazonas, Amapá, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.
E as pesquisas de sábado davam o contrário. Datafolha e Quaest, divulgadas na véspera, mostravam Flávio com 51% e Lula com 49%, dentro de uma margem de 2 pontos. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio tinha terminado na frente com 47,03% contra 45,16%.
Oitenta e um por cento do Brasil foi votar. Aqui a eleição cai numa terça, no meio do expediente, e ainda precisa de campanha pra convencer gente a aparecer.
A eleição acabou às 19h. E não acabou.

O segundo turno tinha hora pra acabar: 17h. Acabou às 19h, por decisão de um ministro do Supremo, assinada às 17h03.
A cronologia é esta, e ela está nos autos:
| hora | o que aconteceu |
|---|---|
| 13h22 | O PT pede ao TSE que prorrogue a votação, por falta de ônibus, começando na Bahia |
| 15h27 | A campanha do Flávio pede o mesmo ao TSE, para 17 municípios de SP, PR e SC, por causa da chuva |
| 15h46 | O PT entra no STF com a Reclamação 101.673/BA |
| 16h33 | A ação é sorteada para Cristiano Zanin |
| 17h00 | Hora oficial de fechar. Nunes Marques, presidente do TSE, não tinha decidido nada |
| 17h03 | Zanin prorroga até 19h, em todo o país |
| 17h49 | Nunes Marques orienta que sigam só as seções ainda abertas |
| 19h | A votação encerra e a totalização é retomada |
O TSE chegou a parar a totalização com 0,25% das urnas apuradas.
E aqui está o problema, sem precisar de teoria nenhuma. A ordem saiu depois do fechamento, e urna fechada não reabre. O advogado eleitoral Eduardo Sant'anna explicou ao Valor que não é impossibilidade jurídica, é impossibilidade material: encerrada e lacrada, ela já emitiu o boletim.
Então as duas horas não valeram igual pra todo mundo. Dependeu de cada seção ter fechado ou não quando a ordem chegou. Nem todas as urnas de uma mesma cidade ganharam o tempo extra.
O próprio Zanin escreveu, na decisão: "sem prejuízo das apurações necessárias oportunamente e suas consequências jurídicas". Foi ele quem deixou a porta aberta.
Às 22h44, o Flávio falou, e não reconheceu. "É impossível reconhecer o resultado das eleições do jeito que aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições. A gente não está aqui para brincadeira. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo."
Chamou a decisão de canetada. Lembrou que Zanin foi advogado do Lula na Lava Jato antes de ser indicado por ele ao Supremo em 2023. E disse a frase que resume a dúvida melhor que qualquer análise: "Eu nunca vou saber, num Estado onde as urnas não foram reabertas, quantos votos eu poderia ter."
Ele também acusou o TSE de tirar os fiscais do PL da sala-cofre durante a apuração. Isso não está comprovado, e eu não tenho como conferir hoje. Fica registrado como acusação, que é o que é.
E tem o pedaço que o discurso dele não cita: a campanha do Flávio também tinha pedido prorrogação, ao TSE, para municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Os dois lados quiseram mais tempo. Um levou.
Marcaram o jogo pra acabar às cinco, o juiz apitou às cinco e três, e metade do estádio já tinha ido embora.
A minha enquete também apontou pro outro lado

Desde o primeiro turno eu pergunto a mesma coisa no Facebook. Vale abrir o arquivo inteiro, porque a amostra não é pequena.
| minha enquete | quando | Flávio | Lula | reações |
|---|---|---|---|---|
| Em quem você vai votar no 2º turno? | 5 out | 81,5% | 18,5% | 281.168 |
| Cada instituto conta uma eleição. Quem leva? | 13 out | 88,3% | 11,7% | 13.700 |
| No frente a frente da Band, quem mandou melhor? | 19 out | 66,9% | 32,3% | 74.299 |
| As pesquisas dão o Flávio na frente. No teu voto, quem leva? | 20 out | 91,5% | 8,4% | 44.044 |
| Último debate, na Globo. Quem manda melhor? | 22 out | 87,8% | 12,0% | 36.770 |
| a urna | 25 out | 48,21% | 51,79% | 128.235.666 |
Datafolha e Quaest, no sábado, davam Flávio 51 e Lula 49. A minha de 5 de outubro deu 81,5 com 281 mil reações.
Agora a parte difícil, e eu vou ficar nela: eu não sei dizer hoje o que isso significa.
O que dá pra afirmar da minha é só isto, e é um defeito de construção que eu conheço desde que publiquei a primeira. O voto ali é reação no post, e curtir é o botão padrão do Facebook, o que a pessoa aperta passando. O lado do curtir nasce gordo. O curtir era o Flávio em todas. Isso infla, e está escrito embaixo de cada uma delas no site desde o dia em que saíram.
Mas quem reage a post de política também não é quem decide eleição. É quem está mais animado. Animação não enche urna, enche comentário. Isso eu já sabia, e não explica tudo.
E o resto eu não vou fingir que explico. A eleição de ontem teve duas horas de prorrogação decididas três minutos depois do prazo, aplicadas de forma desigual, e o segundo colocado anunciou pedido de anulação. Quem está explicando hoje à noite, com certeza, por que as pesquisas erraram, está chutando. Inclusive eu, se eu tentasse.
Em 21 de outubro eu perguntei se o pessoal acreditava nas pesquisas. Sessenta e dois por cento responderam "só na urna dia 25". No fim, eles também vão ter que esperar um pouco mais.
O que já se mexeu, e onde

A bolsa de lá estava fechada. A de cá, não. Ativo brasileiro negocia em Nova York, em Chicago e em Tóquio, e foi aí que a reprecificação começou, no domingo à noite, antes de a B3 abrir.
O EWZ é o termômetro. É o fundo negociado em Nova York que reúne as maiores empresas da bolsa brasileira, e é por ele que estrangeiro compra Brasil sem abrir conta no Brasil. Na sexta ele fechou a US$ 42,59, número que eu puxei dos dados de mercado daqui. No pregão noturno deste domingo caía a US$ 34,80, segundo a Exame, uma perda de US$ 7,79 por cota, ou 18,29%.
A ressalva vale mais que o número. Pregão de madrugada tem pouquíssima gente negociando, e com pouca gente qualquer ordem empurra o preço demais. O número de segunda não vai ser esse. A direção é que é informação.
No Japão, onde o mercado abriu de verdade, o NEXT Funds Ibovespa Linked, ETF que replica a bolsa brasileira em Tóquio, abriu caindo 13%, segundo a Bloomberg News. Isso é sessão normal, com liquidez de verdade.
No câmbio, o contrato futuro de real na CME, em Chicago, caiu cerca de 10%. Convertido para o padrão de lá, dá um dólar implícito perto de R$ 5,52. Na sexta, o dólar à vista fechou a R$ 4,993, o menor valor desde 9 de outubro, e o Ibovespa terminou aos 205.082,56 pontos, de acordo com a Agência Brasil.
Para medir o tamanho do susto, lembra do dia 5 de outubro**, a segunda-feira seguinte ao primeiro turno: Ibovespa em alta de 7,70%, fechando acima de 200 mil pontos pela primeira vez na história, dólar caindo 4,12% para R$ 5,00, EWZ subindo 12,54%. **Em uma noite, o EWZ devolveu mais do que tinha ganhado em três semanas.
Comprou o ingresso, comprou a pipoca, e o filme era outro.
Pra onde pode ir o dólar

Isto aqui não é recomendação de investimento e não serve pra decidir nada. É o que as casas disseram aos clientes antes da urna fechar, com nome e número, pra você saber o que está embutido no preço de amanhã.
O Citi ouviu 73 gestores de fundos de ações e multimercado. No cenário de vitória do Lula, 79% esperavam queda de mais de 5% no Ibovespa no pregão seguinte. 63% esperavam o real se desvalorizando mais de 5%. E 67% viam o juro futuro de janeiro de 2029 subindo mais de 100 pontos-base, de 12,645% para cima.
O JPMorgan projetava dólar a R$ 5,50 nesse cenário, segundo nota citada pela Bloomberg Línea. O futuro de Chicago já passou disso na mesma noite.
O Morgan Stanley desenhou o cenário de estresse, que é o pior caso e não o provável: sem ajuste fiscal, dólar a R$ 6,00, Selic a 15,50% e Ibovespa a 130 mil pontos.
A Suno Research trabalhava com dólar entre R$ 5,40 e R$ 5,60 já na primeira sessão. O economista-chefe da casa, Gustavo Sung, disse ao UOL que a vitória do Lula não era o cenário base deles.
E agora a parte que todas as casas repetiram, com palavras diferentes. O tamanho e a duração disso não dependem do resultado da urna, dependem de três coisas: quem vai ser o ministro da Fazenda, o que o governo fizer com o arcabouço fiscal, e um Congresso onde o governo não tem maioria própria. A dívida bruta está em torno de 83% do PIB.
O mercado não votou no Lula e vai trabalhar com ele por mais quatro anos. É sogra em jantar de Natal: ninguém escolheu, e todo mundo passa o prato.
A vida aqui

Brasileiro que mora fora acorda segunda com a conta já feita.
Quem manda dinheiro pra lá, de repente manda mais. Se o dólar for pra R$ 5,50, cada mil dólares que viram remessa passam de R$ 4.993 pra R$ 5.500. São quinhentos reais a mais na mesma transferência, sem ninguém ter trabalhado a mais por isso.
Quem recebe em real e gasta em dólar leva a conta invertida, e é a conta de quem mora aqui com renda de lá.
E tem o terceiro grupo, que é o maior, e é quem mora no Brasil e não manda nem recebe nada: esse sente pelo produto importado, pelo combustível, e pela viagem que ia fazer.
Dólar não pergunta em quem você votou. Chega pra todo mundo no mesmo horário.
O que eu vou olhar amanhã

A abertura da B3, às 10h de Brasília. O after-hours de domingo exagera, e o preço de verdade é o da sessão com gente dentro.
O primeiro nome da equipe econômica. Foi o que mais apareceu na boca dos analistas hoje, e é o que o mercado vai usar pra decidir se o susto vira tendência.
O discurso. Governo reeleito com 3,58 pontos de diferença e perdendo em 14 estados não governa igual a governo reeleito com folga.
E o que o PL protocolar, se protocolar. Anúncio de pedido de anulação feito em pronunciamento não é petição. O que vale é o que entra, onde entra e com que pedido.
Três semanas de alta desmanchadas numa noite de domingo. Tem gente que perdeu mais dinheiro dormindo ontem do que eu ganhei acordado a semana inteira.
Isto chega por e-mail toda manhã, de graça
O Brasil e os Estados Unidos vistos por quem mora fora. IA, mercado americano e o que a distância deixa ver. Sem enrolação e sem vender curso no meio do texto.
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